I wish I could see you, I hope you're better

8/31/2015 10:03:00 PM







Enquanto esperava  ônibus que vinha pro Guará pela W3 Norte, aproximadamente às 18h de hoje, me peguei fazendo uma coisa autodestrutiva. Quando a cabeça tá vazia, sempre acontece algo desse tipo. Fico me colocando em situações ruins pra mim, que me enchem de mágoa e desprezo e acabo criando uma bolha autoprotetora contra pessoas que nem sequer estavam em tais situações porque elas nem sequer existem.

Numa pequena análise de todas as pessoas que fui ao longo dos meus 21 anos, posso dizer que esse terrível hábito não é nada novo. No trecho W3 Norte–SIG–SIA–Guará I pesquei momentos da minha existência em que criei essa bolha e os coloquei no mesmo lago da auto crítica.

As situações são irmãs tri gêmeas dos períodos da minha vida: infância, adolescencia e fase adulta.

Quando eu tinha cerca de uns 8 ou 9 anos, subia todos os dias os morros de Belo Horizonte voltando da minha aula na Escola Estadual Santos Anjos. Lembro daquele lugar claramente; dois bonitos prédios de dois andares onde abrigavam salas de aulas cheia de crianças infelizes e maldosas que tiravam alguns de seus dias para infernizar a minha já-não-tão-feliz-assim vida. Nunca fui de muitos amigos, sabe? As pessoas pareciam não gostarem de mim somente por eu ser quem eu era. Fui muito solitária, mas isso não é algo que faça com que eu sinta pena de mim mesma, é só um fato.

O término da aula não era nenhum alívio também. Depois de atravessar a ponte entre a faculdade Nilton Paiva e o resto do bairro, tinha um morro infeliz que me tirava o fôlego. No topo do morro tinha um restaurante self-service que me fazia fechar os olhos e respirar fundo o aroma de comida gostosa que vinha dele. Sempre que eu passava por lá, imaginava como seria a minha vida em Brasília e se as coisas aqui seriam melhor. Eu me imaginava com 17 anos, bem descolada e cheia de amigos... me perguntava mentalmente se eu seria assim ou se eu ainda seria solitária e isolada, se eu ainda viveria aqui ou se realizaria meu sonho de ir pros Estados Unidos ou pro Canadá. O cheiro de frango assado, farofa e salada de legumes cozidos fazia meu estômago doer e aumentava ainda mais a minha expectativa para o futuro, pois em casa a gente só comia aquelas coisas em ocasiões especiais e olhe lá. Tinha um garoto que sempre implicava comigo na volta pra casa. Ele vinha sempre na esquina do prédio Espigão com a avenida que descia no bairro do Alto Caiçara. Aquele garoto me tirava do sério. Ele devia ter uns 14 anos e estudava em escola particular, mas seu hábito preferido era me perseguir até praticamente a porta da minha casa e encher o meu saco. Me empurrava, corria atrás de mim, me puxava e me aborrecia de todas as formas. Ao chegar no lava jato uma rua antes da minha, meu alívio sempre aparecia. Haviam duas ruas ali, uma era o caminho da minha casa e a outra o caminho da dele. Ali ele me deixava em paz. Eu nunca guardei rancor desse garoto, até hoje nem sei o nome dele, mas gostaria de encontrá-lo para saber se ele ainda implicaria comigo ou se seria meu amigo.

Vim pra Brasília um pouco depois dessa época e a situação se repetia: Estudei no Centro de Ensino Fundamental 04 do Guará e todos os dias na volta pra casa sofria algum estresse. Nunca guardei mágoa das garotas que ameassaram me bater na 5ª série, nunca senti raiva dos garotos que roubaram o meu Siemens MC 60 na 6ª e nunca me importei com os garotos que me chamavam de horrorosa na 7ª, mas sempre me botei em situações que me fizessem sentir mágoa com os meus amigos. Em Belo Horizonte ou em Brasília, no Guará ou na Asa Norte, tudo sempre volta para esse mesmo problema: eu não sei viver tendo amizades sem que pelo menos alguma vez ao mês eu as coloque num tipo de cenário imaginário que me faça sentir raiva delas e de mim mesma.

No ensino médio era o ciumes que eu tinha do carinha que eu queria namorar e das amizades que ele tinha bem antes de me conhecer. Na faculdade eram os amigos que eu achei que tinha, mas que me pisotearam na primeira vez que eu precisei deles de verdade. Dessas pessoas eu não guardo nem pena, só uma divertida lembrança de como foram ao mesmo tempo muito importantes e insignificantes pra mim. Mas os meus amigos, aqueles que quero levar pra vida, faço questão de propositalmente me afastar vez ou outra.

Os imagino em conversas em que não estou, falando em como estão felizes sem a minha presença ali. Os imagino em conversas em que estou, pensando em como eu deveria simplesmente calar a boca. Os imagino felizes na minha ausência e imagino como seria a vida de todos eles se eu nunca tivesse sido amiga deles. Isso faria deles pessoas melhores? Será que sou só um elo ou uma peça importante?

Vez ou outra paro pra pensar que tenho poucos amigos. Vez ou outra lembro que fui muito amiga de fulaninha na 8ª série, mas hoje em dia finjo que não a vejo quando a encontro no ponto de ônibus. Me pego pensando "o que será que aconteceu pra gente ter se afastado? ah, mas ela nem era tão importante assim." Acontece que talvez essas pessoas fossem sim importantes pra minha história, mas eu fiquei tanto tempo prendendo-as em um cubo de problemas inventados que elas foram embora–ou melhor, eu fui. E aí o tempo passa e eu perco mais amizades com esse hábito triste de me afastar do nada e por nada.

Eu só queria que as pessoas não desistissem de mim tão facilmente também, mesmo que eu insista em colocá-las num quarto e ir pra outro. Mas a vida é assim, um dia a gente aprende.

Só sei que meu eu de 8 ou 9 anos que morava em BH está muito decepcionado numa hora dessas, esse presente aqui não era o futuro que meu passado imaginou. Mas a vida segue.


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